Risco psicossocial entra no balanço de riscos: o que a nova NR-1 cobra das empresas

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Ao tornar a saúde mental um item auditável de gestão, a norma desloca o tema do campo do benefício para o da governança e da precificação de passivos. Para José Roberto Marques, fundador do IBC, a mudança apenas formaliza o que o mercado já sinalizava.

Há um custo que as empresas brasileiras vinham pagando sem contabilizar com precisão. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,66% sobre o ano anterior. No plano global, a OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que depressão e ansiedade custam 12 bilhões de dias de trabalho perdidos por ano e quase US$1 trilhão em produtividade. Nesse cenário, começou a valer a nova fase da NR-1 (Norma Regulamentadora 1).

Desde 26 de maio de 2026, a norma passou a incluir expressamente os fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Na prática, empresas têm de identificar, avaliar, controlar e documentar situações como sobrecarga, assédio, falhas de comunicação, metas inexequíveis e ausência de apoio da liderança. Em março de 2026, o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) publicou um manual de aplicação prática, reforçando que o tema integra a agenda oficial de prevenção e segurança no ambiente corporativo.

De clima a passivo precificável

O efeito mais relevante da regra é de enquadramento. O guia do Ministério do Trabalho determina que a gestão dos riscos psicossociais comece pela identificação das situações que afetam a saúde mental, com instrumentos como avaliação ergonômica preliminar, análise do trabalho, observação, questionários e oficinas, seguida de plano de ação, responsáveis, cronograma e acompanhamento. O foco, segundo o governo, não é avaliar a saúde mental individual de cada trabalhador, mas corrigir condições organizacionais que geram adoecimento.

Esse deslocamento tem consequências diretas para conselhos, áreas jurídicas e auditorias internas. Quando metas, jornadas, comunicação e liderança passam a ser fatores de risco documentáveis, a saúde emocional sai do território da cultura e entra no de compliance e prevenção de passivos. Para empresas expostas à alta rotatividade ou pressão intensa por performance, o risco emocional tende a se tornar mais visível e mensurável.

O peso econômico da gestão

O mercado tem números parecidos. No relatório State of the Global Workplace 2026, a Gallup mostrou que o engajamento global caiu de 21% para 20% em 2025, movimento que custou quase US$10 trilhões em produtividade. A mensagem é que saúde mental no trabalho não se resolve com benefício isolado, mas pela qualidade da liderança e pela forma como a rotina é estruturada.

“A NR-1 exige diagnóstico, plano de ação e acompanhamento de riscos psicossociais. Isso é exatamente o que fazemos com empresas há décadas. A diferença é que antes era opcional. Agora é obrigação legal. As empresas que investiram em desenvolvimento emocional antes da norma não terão que correr para se adequar. As que ignoraram vão descobrir que o custo de não investir em pessoas é muito maior do que o de investir”, afirma José Roberto Marques.

Antecipação de tendência

José Roberto Marques construiu ao longo de mais de 40 anos uma operação voltada ao desenvolvimento humano, com mais de 6 milhões de pessoas treinadas, presença em mais de 40 países, mais de 140 mil alunos formados e mais de 110 livros publicados que somam milhares de exemplares vendidos. A NR-1 dá respaldo legal a uma tese que ele defende há décadas: a de que inteligência emocional corporativa é infraestrutura de gestão, não adorno. O risco psicossocial, antes invisível no balanço, ganha agora o mesmo tratamento que indicadores ambientais e de governança já têm: nome, métrica e cobrança. 

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